A relação entre o entorse de tornezelo com as disfunções do joelho numa visão osteopática: revisão de literatura

Resumo

O entorse de tornozelo é caracterizado por uma amplitude de movimento além do arco fisiológico, e ocorre principalmente com a combinação dos movimentos de inversão e flexão plantar. Cerca de 3 a 5% das consultas médicas são referentes a dores nos joelhos, queixas estas que acabam levando a uma grande quantidade de exames e encaminhamentos para especialistas. A osteopatia é uma abordagem diagnóstica e terapêutica manual das disfunções de mobilidade articular e tissular que participam do nascimento dos sintomas dolorosos. Objetivo: Correlacionar um tipo de lesão comum, o entorse de tornozelo, a um sintoma freqüente na população, dor no joelho, numa visão osteopática. Método: A revisão utilizou as bases de dados da Medline, Lilacs, Scielo e Cochrane entre 21.01.2012 e 30.03.2012, além de toda literatura existente impressa relacionada ao tema. Resultados: Foram selecionados 15 artigos e 2 literaturas impressas para o presente estudo. Conclusão: O entorse de tornozelo tem influência sobre as lesões na articulação do joelho.

Palavras-chave: osteopatia, entorse, tornozelo, joelho.

Abstract

Introduction: The ankle sprain is characterized by a range of motion over the rainbow physiological, and mainly with the combination of movements of inversion and plantar flexion. Approximately 3-5% of outpatient visits are related to knee pain, those complaints which lead to a lot of tests and referrals to specialists. Osteopathy is a manual diagnosis and treatment of disorders of joint mobility and tissue that participate in the birth of the painful symptoms. Objective: To correlate a common type of injury, the ankle sprain, a frequent symptom in the population, knee pain, an osteopathic vision. Method: The review used the databases Medline, Lilacs, Scielo and Cochrane between 01/21/2012 and 30/03/2012, and all printed literature related to the theme. Results: We selected 15 articles and two printed literature for this study. Conclusion: The ankle sprain has an influence on injuries in the knee joint.

Keywords: osteopathy, sprains, ankle, knee.

Introdução

As lesões de tornozelo têm alta incidência, principalmente no meio esportivo, sendo de grande interesse na reabilitação profissional 1,2. Estas lesões são responsáveis por 20 a 25% de afastamento no esporte 6. O tornozelo é uma articulação do tipo troclear, envolvendo a parte distal da tíbia e fíbula e a parte proximal do tálus 7. O tálus apresenta uma tróclea na sua face superior que se articula com a parte distal da tíbia e da fíbula. Esta articulação possui apenas um grau de liberdade, onde ocorrem os movimentos de flexão plantar e dorsiflexão 9. Já que a articulação do tornozelo permite somente os movimentos de flexão plantar e dorsiflexão, os movimentos de inversão e eversão incidem abaixo dessa articulação, ou seja, abaixo do tálus, pertencendo à articulação subtalar, a qual é composta pelo osso calcâneo e pelo tálus 9. O tornozelo e o pé são praticamente indivisíveis, seus movimentos são totalmente inter-relacionados 5, isso faz com que possa ser gerado o mecanismo do entorse de tornozelo, que é caracterizado por uma amplitude de movimento além do arco fisiológico, e ocorre principalmente com a combinação dos movimentos de inversão e flexão plantar 1,11. Como o entorse ocorre pelo aumento do movimento articular ou um movimento anormal, ocorre um estiramento e/ou ruptura de vários tecidos, por exemplo, rupturas ligamentares completas ou incompletas; frouxidão capsular e instabilidade articular 10,16. Tal fato deve-se, principalmente, aos gestos esportivos que são executados nestes esportes, sendo os saltos, as corridas e as quedas ao solo os principais responsáveis pelas lesões nos tornozelos. Os entorses correspondem a 75% dessas lesões e o mecanismo por inversão atinge cerca de 85% a 90% 10. Com isso podendo influenciar no importante objetivo da articulação do tornozelo de sustentação do peso corporal e na fase de apoio da marcha 5, porém esta lesão pode influenciar em outros componentes e articulações, como o joelho. Cerca de 3 a 5% das consultas médicas são referentes a dores nos joelhos, queixas estas que acabam levando a uma grande quantidade de exames e encaminhamentos para especialistas, o que leva a um aumento considerável do número de atendimentos destes pacientes 13. O complexo do joelho é composto de duas articulações distintas localizadas no interior de uma única cápsula articular, articulação tibiofemoral e patelofemoral, e um conjunto de ligamentos que são responsáveis pelo equilíbrio e bom funcionamento desse complexo articular 5. Os movimentos primários da articulação do joelho são flexão/extensão e, numa pequena quantidade, rotação medial e lateral. Estes movimentos ocorrem em eixos diferentes, mas definidos, e servem para a função de sustentação do peso realizado pela extremidade inferior. A articulação do joelho pode também realizar deslocamentos, tibial ou femoral anterior e posteriormente alguma abdução e adução através das forças em varo e valgo. 12. A lesão por entorse pode causar a ruptura ou distenção permanente dos componentes articulares, e é acompanhada sempre de uma lesão dos elementos sensitivos da articulação, receptores capsuloligamentares, e aos fusoneuromusculares 14, que é um dos elementos que caracteriza uma lesão osteopática. A lesão osteopática ou disfunção se define como uma restrição de mobilidade em um ou vários parâmetros fisiológicos de movimento, como conseqüência, contratura muscular, aparição da dor e limitação de amplitude. Podemos distinguir em dois tipos de lesão, a primária que se define como uma perda de mobilidade devido a um traumatismo, no caso do entorse. E a secundária que se define como uma perda de mobilidade que se instala em compensação a uma lesão primária, no caso de uma lesão de adaptação na articulação do joelho 8. Osteopatia é uma abordagem diagnóstica e terapêutica manual das disfunções de mobilidade articular e tissular que participam do nascimento dos sintomas dolorosos 8. Através desta revisão, buscamos correlacionar um tipo de lesão comum, o entorse de tornozelo, a um sintoma freqüente na população, dor no joelho, numa visão osteopática.

Método

A presente revisão utilizou as bases de dados da Medline, Lilacs, Scielo e Cochrane entre 21.01.2012 e 30.03.2012. Nas bases de dados citadas foram utilizadas as palavras chave “entorse tornozelo”, “anatomia joelho”, “anatomia tornozelo” e “osteopatia” e respectivamente os termos citados em inglês, "Ankle sprain", "Knee Anatomy," "anatomy ankle" and "osteopathy". Além de toda literatura existente impressa relacionada ao tema. Todos os artigos e revistas citados nesta revisão são assinados e reconhecidos pela Caps. A procura resultou num total de 87 artigos e 6 literaturas impressas. Critérios de seleção: foram incluídas literaturas que se referem à anatomia e biomecânica do tornozelo e joelho, a lesão de tornozelo por entorse e conceitos de osteopatia. Usando este critério de seleção, foram excluídos artigos baseando-se primeiramente nos títulos e resumos e publicados em língua diferente do português ou do inglês.

Resultados

Dadas as limitações, foram selecionados 15 artigos e 2 literaturas impressas para o presente estudo, onde 10 são sobre anatomia e entorse de tornozelo, 6 sobre anatomia e biomecânica de joelho e 1 sobre conceito de osteopatia.

Discussão

O entorse é considerado a lesão de maior ocorrência na articulação do tornozelo, principalmente em esportes envolvendo contato, saltos e quedas 10. A causa do entorse ainda não está bem estabelecida, mas acredita-se que alterações na estabilidade ligamentar 3,15 e na força muscular 4,17 podem estar associadas a esta disfunção. Durante a marcha, corrida e esportes como futebol e voleibol, o joelho está submetido a forças laterais, mediais, axiais e antero-posteriores, em situações extremas onde temos um excesso dessas amplitudes, estruturas internas do joelho são extremamente solicitadas, podendo causar lesões dessas estruturas 8. No entorse de tornozelo por inversão é caracterizado um estiramento do compartimento lateral, o que causa estiramento ou rupturas ligamentares, lesões na cápsula e levando a contraturas musculares. No caso do ligamento mais atingido nesta lesão, o talo-fibular anterior, pode não se romper, causando uma tração antero-inferior na fíbula, levando a anterioridade da cabeça da fíbula. Nessa lesão podemos presenciar uma sensibilidade à palpação na parte anterior da cabeça da fíbula, restrição antero-posterior e superior, e dor na parte lateral do joelho – ligamento colateral lateral. No momento do entorse, ocorre naturalmente um varo na altura da articulação do joelho, o que pode causar uma outra lesão osteopática, a lesão em adução. Ocorre quando há uma tensão progressiva, por retração ou contratura, da cadeia muscular envolvida no entorse de tornozelo gerando um varo na articulação do joelho. O que significa um fechamento da interlinha medial levando a retração do ligamento colateral medial e o estiramento do colateral lateral. Nesta lesão poderemos observar aumento do varo fisiológico, dor no ligamento colateral lateral, restrição do valgo do joelho e uma fraqueza do gastrocnêmio lateral e tensor da fascia-lata. Ainda numa fase mais avançada pode levar a uma condropatia medial da patela com atrofia do vasto lateral e uma lesão do menisco medial. Para correção dessas lesões há a necessidade primeiro de uma avaliação completa, como anamnese, marcha, função e palpação. Após constatar as lesões aplicar as técnicas de normalização, como inibições e relaxamento muscular, técnicas diretas para normalizar as restrições articulares, alongamentos e fortalecimento muscular para manutenção. Uma limitação do estudo foi a falta de artigos no segmento de osteopatia e terapias manuais, provavelmente por conta da dificuldade de padronização e mensuração das técnicas.

Conclusão

O entorse de tornozelo tem influência sobre as lesões na articulação do joelho, o que mostra a necessidade de uma avaliação global do paciente.

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